quarta-feira, 18 de abril de 2018

Hoje é dia de adivinha


Ilustração da capa do Almanaque BORDA D’ÁGUA, um veículo de transmissão de
adivinhas e de outras formas de Cultura Popular, que ainda se continua a publicar.

É sabido que sou um estudioso da Cultura Popular. Em particular interessa-me todo o tipo de Literatura de Tradição Oral. A ela pertencem o cancioneiro popular, o adagiário, o adivinhário, a gíria popular, os trava línguas, as lengalengas, as parlendas, as alcunhas, a antroponímia e a toponímia.
Ao longo do tempo tenho integrado na minha biblioteca pessoal, os espécimes dessa literatura, que vou conhecendo e adquirindo nos alfarrabistas. Como tal, neste como noutros domínios, a minha biblioteca está em permanente construção. Por isso encontrar uma nova fonte bibliográfica de que não dispunha, constitui sempre um momento de prazer muito especial.
Por outro lado, existe ainda o prazer redobrado porque inesperado, de chegar ao meu conhecimento por transmissão oral, um exemplar desconhecido e que ainda não tinha sido fixado no papel, para ser perpetuado no tempo e transmitido a toda a comunidade.
Nutro um gosto especial pelas adivinhas que nos eram ensinadas pelos familiares nas longas noites de Inverno e se seroava. Não havia ainda televisão e muito menos Internet ou redes sociais. Conversava-se à braseira ou à lareira e partilhava-se com os outros aquilo que se sabia. Estamos longe desses tempos, mas é possível suprir essa lonjura recorrendo a compilações de adivinhas como as de Teófilo Braga, José Leite de Vasconcellos, Alberto Vieira Braga, Augusto Castro Pires de Lima, Fernando de Castro Pires de Lima, Manuel Viegas Guerreiro e José Viale Moutinho.
Foi com alegria que recentemente tomei conhecimento duma adivinha que me foi transmitida pelo senhor Zé dos bois e que de seguida formulo:  
O indivíduo não é gerente comercial, nem director de marketing.
O sujeito não é relações públicas, nem tampouco chefe de vendas.
A criatura não é chefe da contabilidade, nem mesmo fiel de armazém.
O fulano não é afinador de motores e muito menos bate-chapas.
O fulano não é pintor de carroçarias, nem sequer lavador de carros.
O beltrano não é limpador de vidros, tal como não é arrumador de carros.
O sicrano não é empregado da limpeza, nem ao menos segurança.
Aquilo não é a TV pelo que a figura não pode ser a do emplastro.
O que é então?
Adivinhe quem for capaz.

Cronista do E, estudioso da Cultura Popular e tudo.
(Texto publicado no jornal E nº 198, de 19-04-2018)