segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

D. Nuno Álvares Pereira - Um herói em tempo de crise


Assim se vai às estrelas (i)   
                              Virgílio (Eneida, 9, 641)

1. D. NUNO ÁLVARES PEREIRA PROCLAMADO SANTO

Filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital, D. Nuno Álvares Pereira terá nascido em Cernache do Bonjardim ou Flor da Rosa em 24 de Junho de 1360. Foi para a Corte aos 13 anos, sendo armado cavaleiro por Dona Leonor Teles com o arnês do Mestre de Avis, de quem se torna amigo. Adere à causa do Mestre, que o nomeia fronteiro da comarca de Entre Tejo e Odiana.
Vencedor da Batalha dos Atoleiros (6 de Abril de 1384), de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385) e de Valverde (15 de Outubro de 1385), D. Nuno Álvares Pereira desempenhou um papel fundamental na resolução da crise de 1383-1385 com Castela e na consolidação da independência. Por isso sempre foi, desde sempre, muito justamente considerado como um símbolo da independência nacional.
Nomeado Condestável do Reino e Mordomo-mor, recebeu ainda de D. João I, os títulos de 3º conde de Ourém, de 7º conde de Barcelos e de 2º conde de Arraiolos.
Em 1388 iniciou a edificação da capela de São Jorge de Aljubarrota e, em 1389, a do Convento do Carmo, em Lisboa, onde se instalaram os frades da Ordem do Carmo, no ano de 1397.
Após a morte de sua esposa, Leonor de Alvim, com quem casara em 1376, torna-se Carmelita em 1423, recolhendo ao Convento do Carmo, em Lisboa, onde ingressa sob o nome de Irmão Nuno de Santa Maria. Ali permanece até à sua morte em 1 de Novembro de 1431, aos 71 anos de idade e já com fama de Santo.
Durante os últimos anos de vida, aquele que foi considerado o homem mais rico de Portugal, abandona todos os títulos nobilárquicos, desfaz-se de todas as riquezas materiais e procura ajudar os mais necessitados de Lisboa, tornando-se num mendigo a juntar esmola para entregar a quem precisava de comer. O Rei ordenou então que deixasse de pedir e concedeu-lhe sustento, que este repartia de igual forma pelos mais humildes e necessitados, junto dos quais procurava a riqueza interior.
D. Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV e é desde 26 de Abril de 2009, mais um Santo português, após a cerimónia de canonização em Roma, do Beato Nuno de Santa Maria. O anúncio fora feito pela Santa Sé, no final do Consistório de 21 de Fevereiro de 2009, presidido por Sua Santidade o Papa Bento XVI.
Em nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa divulgada em Fátima a 6 de Março de 2009, a propósito da Canonização de D. Nuno Álvares Pereira, pode-se ler:
“A pessoa e acção de Nuno Álvares Pereira são bem conhecidas do povo português. A nível civil, é lembrado em monumentos, praças e instituições; a nível religioso, é celebrado em igrejas, imagens e associações. Figura incontornável da nossa história, importa revitalizar a sua memória e dar a conhecer o seu testemunho de vida. Para além de ser um modelo de santidade, no seguimento radical de Cristo, que “não veio para ser servido mas para servir” (Mateus 20, 28), apraz nos pôr em relevo alguns aspectos de particular actualidade, para todos os homens e mulheres de boa vontade:
- Nuno Álvares Pereira foi um homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira. Fez da sua vida uma missão, correndo todos os riscos para bem servir a Pátria e o povo.
- Em tempo de grave crise nacional, optou corajosamente por ser parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação.
- Coroado de glória com as vitórias alcançadas, senhor de imensas terras, despojou se dos seus bens e optou pela radicalidade do seguimento de Cristo, como simples irmão da Ordem dos Carmelitas.
- Não se valeu dos seus títulos de nobreza, prestígio e riqueza, para viver num clima de luxos e grandezas, mas optou por servir preferencialmente os pobres e necessitados do seu tempo.”
Mais adiante aquela nota pastoral acrescenta: “Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também um apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão do melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.”
Também a propósito da canonização de D. Nuno Álvares Pereira, Sua Excelência o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, em mensagem divulgada a 26 de Abril de 2009, proclamou:
“Hoje é um dia de alegria para todos os Portugueses.
A canonização de Nuno Álvares Pereira constitui um gesto que honra uma das figuras mais marcantes da nossa História, uma figura em que os Portugueses se revêem como símbolo de amor ao seu País, de defesa corajosa da independência nacional, de vontade de triunfar mesmo nas horas mais difíceis.
Orgulhamo-nos com a canonização de Nuno Álvares Pereira, pelo que ela representa de reconhecimento do valor exemplar de um português heróico e ilustre.
Um português que soube também ser humilde, o que o levou a retirar-se do gozo das grandezas mundanas em nome da fé que possuía.
Recordo o seu epitáfio: “As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge”.
De facto, Nuno Álvares Pereira soube voltar as costas às honras terrenas que conquistara através de feitos heróicos.
Mas não voltou as costas ao seu amor por Portugal, pois foi em nome desse amor que o Condestável comandou tropas em defesa da independência de uma nação ameaçada.
O “forte Dom Nuno”, como lhe chamou Camões, é um exemplo para todos nós e, muito em particular, para as nossas Forças Armadas.
Congratulo-me pela canonização de Nuno Álvares Pereira e estou certo de que este gesto ficará inscrito na nossa memória colectiva e será motivo de orgulho e de alegria para todos os que amam o nosso País e a sua história.”
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2. D. NUNO ÁLVARES PEREIRA NA CULTURA PORTUGUESA
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Talvez a referência mais antiga a Nuno Álvares Pereira na poesia portuguesa, seja a cantiga que os pobres cantavam à porta do Convento do Carmo, onde ele se havia recolhido. Tal cantiga, recolhida dos manuscritos de Azurara, foi coligida por Teophilo Braga (ii) no seu "Cancioneiro Popular" [2]:

O Gram Condestabre
Em o seu Mosteiro
Dá-nos sua sôpa,
Mail-a sua rôpa,
Mail-o seu dinheiro.

A bênção de Deos
Cahiu na Caldeira
De Nunalves Pereira,
Que abondo cresceu
E todolo deo.

Se comer queredes,
Nom bades alem:
Don menga non tem,
Ahi lo comeredes,
Como lo bedes.”

Camões (iii) , em termos exactos ou simbólicos, de um modo explícito ou implícito, faz referência ao Condestável nada menos que 14 vezes em “Os Lusíadas” [3], chamando-lhe o "forte Nuno" e logo no Canto I, onde indica o assunto global da obra, na 12ª estrofe, evoca a figura de São Nuno, ao dizer:

“Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
…………………………………………………………”

No Canto IV, Vasco da Gama prossegue a narrativa da História de Portugal ao rei de Melinde, iniciada no Canto III, narrando agora a história da 2.ª Dinastia, começando pela a revolução de 1383-85, incidindo fundamentalmente na figura de Nuno Álvares Pereira e na Batalha de Aljubarrota. Na estrofe 30, após o início da batalha é logo destacada a acção de Nun’Álvares:

"Começa-se a travar a incerta guerra;
De ambas partes se move a primeira ala;
Uns leva a defensão da própria terra,
Outros as esperanças de ganhá-la;
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala:
Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.”

e na estrofe 45, Nun’Alvares é reconhecido como o artífice da vitória contra os castelhanos:

"O vencedor Joane esteve os dias
Costumados no campo, em grande glória;
Com ofertas depois, e romarias,
As graças deu a quem lhe deu vitória.
Mas Nuno, que não quer por outras vias
Entre as gentes deixar de si memória
Senão por armas sempre soberanas,
Para as terras se passa Transtaganas.”

No Canto VIII, Paulo da Gama explica ao Catual o significado dos símbolos das bandeiras portuguesas, contando-lhe episódios da História de Portugal nelas representados. E na estrofe 32 diz:

"Se quem com tanto esforço em Deus se atreve,
Ouvir quiseres como se nomeia,
Português Cipião chamar-se deve;
Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:
Ditosa pátria que tal filho teve!
Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia
Este globo de Ceres e Netuno,
Sempre suspirará por tal aluno.”

De acordo com o Professor Doutor Márcio Moniz [5]: ”Nuno Álvares Pereira recebe por parte de Camões a consideração dada aos grandes heróis da pátria. Na condição de artífice da vitória na Batalha de Aljubarrota, que impediu a dominação castelhana durante a crise de 1383-1385, o Condestável terá um espaço, em termos de quantidade de estâncias ou oitavas do poema, que poucas personagens terão. Além disso, o poeta concede-lhe a voz narrativa num discurso feito durante a reunião do Conselho Real, em Abrantes, para decidir sobre a batalha, cuja força retórica só se assemelha à fala de outras importantes personagens do poema, como o Velho do Restelo, Inês de Castro e o Gigante Adamastor.” Para aquele Professor de Literatura: “Os adjectivos com que o poeta qualificará a pessoa e as acções do herói também são representativos da deferência que lhe tem Camões. Nuno Álvares Pereira é forte, feroz, leal, verdadeiro, grande, valoroso, entre outros adjectivos que lhes ressaltam as qualidades físicas, morais e éticas. Ou seja, toda a descrição busca qualificá-lo como figura central e responsável não só pela vitória na Batalha de Aljubarrota, mas também pela construção e afirmação da liberdade do reino, governado por um novo rei, alçado ao trono por uma nova dinastia, a de Avis.”
Outros poetas escreveram sobre Nuno Álvares Pereira. Em 12 de Dezembro de 1928, Fernando Pessoa (iv) , escreveu o poema:

“NUN’ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
é a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur (v) , a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser, (vi) 
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver.(vii)"

Este poema seria integrado na “Mensagem” [7], que como nos diz António Quadros no seu artigo “O título da mensagem” in [6] é “um livro hermético, com uma mensagem oculta, que ao ser recebida inicia o recipiente nos mistérios que ela própria contém”. Em “Nun’Alvares Pereira”, poema estruturado em três estrofes (quadras), à maneira de diálogo, o poeta dirige-se a D. Nuno, a quem em cada estrofe formula uma pergunta, apresentando de seguida uma resposta. D. Nuno Álvares Pereira fora beatificado em 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV e apesar de canonicamente ter sido apenas beatificado, a crença popular considera-o Santo (Santo Condestável) celebrando a sua festa religiosa a 6 de Novembro. Na primeira estrofe do poema, o poeta aponta a santidade de Nun’Álvares e associa heroísmo e santidade. Na segunda estrofe, a espada de Nun’Álvares é celebrada como um instrumento de força duplamente material e espiritual, que não é uma simples arma de Guerra, mas aquela que foi abençoada por Deus, tal como a “Excalibur” do Rei Artur. Esta referência a “Excalibur” permite inferir metonimicamente a herança inglesa na História de Portugal e implicitamente o Santo Graal.
Pessoa na “Mensagem” e Camões em “Os Lusíadas” cantam Portugal e em particular Nun’Alvares, mas de um modo bastante diferente. Camões canta o início do império real, através da narração e da descrição, valorizando o passado e o nacionalismo. Por sua vez, Pessoa canta o fim do império português, duma forma abstracta e interpretativa, exaltando o futuro ao cantar um Portugal que há-de voltar a ser glorioso (o do Quinto Império), bem como o nacionalismo universalista.
Outros poetas como Guerra Junqueiro, Corrêa d'Oliveira, Afonso Lopes Vieira, Augusto Casimiro, Fernando Pessoa, Mário Beirão, Miguel Torga, Couto Viana, Moreira das Neves, etc, cantaram igualmente Nun’Alvares.
Para além da poesia, a bibliografia acerca de Nuno Álvares Pereira, aproxima-se do milhar de títulos, número que inclui crónicas, livros de História, artigos de jornais e revistas, biografias, hagiografias, etc. Por ordem cronológica merece a pena destacar a seguinte bibliografia:
1. LOPES, Fernão. Chronica de El-Rei D. João I. Escriptorio. Lisboa, 1897-1898 (7 vol).
2. ANÓNIMO. Crónica do Condestabre de Portugal de Dom Nuno Alvarez Pereira, do século XV. Edição F. França Amado. Coimbra, 1911.
3. MARTINS, J. P. Oliveira. A Vida de Nun'Alvares, Lisboa, 1893.
4. CARDOSO, Elias. A Bibliografia Condestabriana. Instituto Carmelitarum. Roma, 1958.
5. ALMEIDA, Fortunato. História da Igreja em Portugal. Livraria Civilização, Porto, 2000 (4 volumes).
Nuno Álvares Pereira motivou “(…) também músicos, que produziram variedade de cânticos e de hinos (Manuel Nunes Formigão, Venceslau Pinto, Inácio Aldossoro, M. Pacheco, Luiz Gonzaga Mariz, José Ferreira...) desde as remotas chacóinas ou músicas com que os habitantes da zona saloia de Lisboa abrilhantavam as suas peregrinações ao túmulo do Conde Santo na Igreja do Convento do Carmo”. [4]
Passemos agora à iconografia de D. Nuno Álvares Pereira. Segundo D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa [1]: “As descrições fisionómicas de Nuno de Santa Maria, referidas pelos cronistas carmelitas, apontam como características principais do seu rosto: comprimido e branco, nariz afilado, olhos pequenos e vivos, sobrancelhas arqueadas, rugas na testa, boca pequena, cabelo e barba ruivos, sendo esta pouco densa e caída.” Segundo o Prelado: “Quando se trata de iconografia de santos, a primeira questão é saber se há “verdadeira efígie”. Ora, para São Nuno de Santa Maria é considerado um retrato do século XV, no espaldar da sacristia do Convento do Carmo de Lisboa, de meio-corpo e vestido como donato carmelita (meio-irmão). Este quadro ardeu no terramoto de 1755, mas conservam-se muitas figurações semelhantes”. No artigo citado é dada a conhecer vasta iconografia do Condestável, representando-o como donato carmelita e em veste de guerreiro. Da iconografia referida, salientamos alguma que nos parece merecer destaque:
- Pintura seiscentista sobre tábua (Moura);
- Xilogravura da “Crónica do Condestabre”, da edição de Germão Galhardo (1526);
- Azulejos setecentistas da Igreja de Nossa Senhora da Orada, em Sousel;
- Estátua do escultor Vítor Bastos (1873) no Grupo Escultórico do Arco da Rua Augusta, em Lisboa;
- Desenho de António Carneiro (1927) conservado no Museu de Amarante;
- Estátua de Leopoldo de Almeida (1966), frente ao Mosteiro da Batalha.
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3. D. NUNO ÁLVARES PEREIRA NA FILATELIA PORTUGUESA
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Os Correios de Portugal associaram-se à Canonização do Beato Nuno de Santa Maria, emitindo um selo (Fig. 1) cujo design é do Atelier Acácio Santos/Túlio Coelho, a partir de foto de retrato de D. Nuno Álvares Pereira, óleo sobre tela, de autor português desconhecido, do século XVI, pertencente a colecção particular. Os selos com 40x30,6 mm foram impressos a off-set em folhas de 50 sobre papel de 102g/m2, com denteado 13 x Cruz de Cristo. A tiragem foi de 330.000 exemplares. Foi igualmente emitido um sobrescrito de 1º dia, formato C6 e uma pagela cujo texto é subscrito pelo Cardeal D. José Saraiva Martins. Houve obliterações de 1º dia em Lisboa (Fig. 2), Porto, Funchal e Ponta Delgada.

Fig. 1
Fig. 2
Julgamos ter interesse destacar aqui algumas peças filatélicas centradas na figura do Herói e Santo. Assim:
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Fig. 3 - D. NUNO ÁLVARES PEREIRA NA BATALHA DOS ATOLEIROS - Postal máximo realizado com selo da taxa de 5 C, utilizada como taxa complementar, reproduzindo desenho de Alfredo Roque Gameiro baseado na imaginação do artista e gravura da firma Thomas de La Rue (Londres). Selo emitido em 1928 para comemorar a Independência de Portugal (3ª Emissão). Postal editado por A.F. (António Furtado), reproduzindo o desenho utilizado no fabrico do selo. Obliteração ordinária de 27.11.1928 (1º dia de circulação do selo), de LISBOA CENTRAL/3ª SECÇÃO, capital do Reino, de onde o Condestável D. Nuno Alvares Pereira partiu para a Batalha dos Atoleiros, que se travou a 6 de Abril de 1384, a meia légua de Fronteira, entre o exército português sob o seu comando e o exército castelhano, comandado pelo seu irmão, D. Pedro Alvares Pereira, Prior do Crato.

Fig. 4 - BATALHA DE ALJUBARROTA - Postal máximo realizado com selo da taxa de 20$00, reproduzindo desenho de Luís Filipe de Abreu, litografado na Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Selo emitido em 1985 para comemorar o 6º Centenário da Batalha de Aljubarrota. Postal da “Colecção Lusitana”, reproduzindo aguarela de Alberto de Souza. Obliteração ilustrada concordante de S. JORGE - PORTO DE MÓS, de 14/8/85, comemorativa do 6º Centenário da Batalha de Aljubarrota, travada nesse local no final da tarde de 14 de Agosto de 1385, entre tropas portuguesas comandadas por D. João I de Portugal e por D. Nuno Álvares Pereira, e o exército castelhano de D. João I de Castela. Esta batalha saldou-se por uma derrota definitiva dos castelhanos, o fim da crise de 1383-1385 e a consolidação de D. João I como rei de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis.

 Fig. 5
Fig. 6
Fig 5. e Fig 6. NUN’ALVARES NA HORA DE VALVERDE. Fig. 5 - Exterior de Bilhete-postal de Boas Festas (Nº 30) do serviço nacional, com selo de $25, azul claro do tipo “TUDO PELA NAÇÃO”, da emissão de 1940, com sobrecarga “ISENTO/PORTARIA/10.509” tipo I, da emissão de 1943, redigido a 12 DEZ 44 na Ilha do Sal – Cabo Verde, com marca do dia, de partida, a obliterar o selo (Fig. 5 – metade inferior). À esquerda da marca do dia, a marca “Censurado”, manuscrita a vermelho e logo por baixo, a rubrica do censor militar. Ainda no exterior do bilhete-postal, marca de Passagem de Censura Militar, circular, com 25 mm de diâmetro, batida a violeta e que era aplicada pelo censor militar, sediado na estação dos correios do local de chegada. Nesta marca, as indicações: M.G. (Ministério da Guerra) e C.M.P.T. (Censura Postal Militar Telegráfica), seguida da indicação que o carimbo é de passagem (P) e o censor militar o número 42, o qual rubricou à esquerda da marca do dia. Ilustração de Jaime Martins Barata no interior (Fig. 6 – metade direita): “NUN’ALVARES NA HORA DE VALVERDE”.

Fig. 7 - D. NUNO ÁLVARES PEREIRA - Postal máximo realizado com postal de edição privada, não identificada, reproduzindo gravura em madeira de autor desconhecido, impressa no verso da folha de rosto da "Chronica do Condestabre", de Femão Lopes, editada em Lisboa, em 1526 por Gusmão Galhardo. Selo da taxa de 15 C, utilizada nos impressos internos, reproduzindo a mesma gravura e emitido em 1931 para assinalar o 9° Centenário da Morte de D. Nuno Álvares Alvares Pereira. Obliteração ordinária de 1.11.1931 (1° dia de circulação do selo e data do 5° Centenário da Morte de D. Nuno Alvares Pereira), de dupla elipse de LISBOA CENTRAL/1ª SECÇÃO, cidade que ajudou a defender dos castelhanos na sua qualidade de fronteiro e defensor da Comarca de Entre e Ondiana. Em Lisboa se situa o Convento de Santo Maria do Carmo, onde o Condestável depois de ter posto termo à carreira militar, professou ordens monásticas em 1.4.1931 e viria a morrer em 1.11.1431.
Fig. 8 - D. NUNO ÁLVARES PEREIRA - Bilhete-postal do serviço nacional, com selo de 25 C, rosa-carmim, da emissão “Lusíadas”, de 1934. Composição da chapa com grafia “Enderêço” e selo 28 mm acima da 1ª linha da direcção. Tiragem em cartolina camurça. Utilização no serviço internacional com recurso a par de selos comemorativos, de 15 C, do 9° Centenário da Morte de D. Nuno Álvares Alvares Pereira, de 10 C de Padrões da Grande Guerra e de 40 C da emissão Lusíadas, como complemento de porte de 1$00, o qual foi excedido em 5 C. Expedido a 22-8-34 de PORTO CENTRAL / 3ª SECÇÃO para BUDAPEST. Circulação durante o chamado “Período de recurso”.

Fig. 9 - D. NUNO ÁLVARES PEREIRA - PATRONO DA INFANTARIA - Bilhete-postal comemorativo, de taxa paga, válido para o serviço nacional. Design do atelier Acácio Santos/Túlio Coelho. Porte de 0,32 € do serviço nacional e prémio de registo simples de 1,30 €. Obliteração comemorativa ilustrada de MAFRA, de 14-8-2009, primeiro dia de circulação do Bilhete-postal. Expedido de Mafra para a Amadora.
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(i) - Do latim: “Sic itur ad astra” – alusão à subida ao céu, típica dos heróis.
(ii) - Joaquim Teophilo Fernandes Braga (1843-1924), poeta, historiador da literatura, ensaísta e político português.
(iii) - Luís Vaz de Camões (c. 1524 - 1580), considerado como o maior poeta de língua portuguesa.
(iv) - Fernando Pessoa (1888-1935), poeta e escritor português, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, com valor comparado ao de Camões.
(v) - “Excalibur” é a fabulosa espada do Rei Artur, figura lendária britânica que de acordo com o folclore e literatura medievais, teria comandado a defesa contra os invasores saxões aportados à Grã-Bretanha no início do século VI. A existência histórica do Rei Artur é contestada por historiadores modernos e diversas fontes apontam a escassez dos seus antecedentes históricos. As lendas sobre o Rei Artur apresentam duas versões distintas sobre a origem de “Excalibur”:
- O “Ciclo do Lancelote-Graal”, importante fonte literária de lendas arturianas, escrita originalmente em francês nos anos 1210-1220 e que consta de uma série de cinco volumes em prosa, que relatam a história da demanda do Santo Graal e o romance entre o cavaleiro Lancelote e a rainha Genebra. Segundo o “Ciclo do Lancelote-Graal”, ”Excalibur” seria a espada presa na pedra.
 - O “Ciclo do Pseudo-Boron”, relevante conjunto de textos literários medievais sobre as lendas arturianas, escrito originalmente em francês nos anos 1230-1240, consiste numa modificação do “Ciclo do Lancelote-Graal”. O material do livro de Lancelote, que descreve o romance considerado pecaminoso entre Lancelote e a rainha Genebra, foi em grande parte omitido. Em contrapartida, é dada mais ênfase ao livro da Demanda do Santo Graal e aos aspectos cristãos da história. Segundo o “Ciclo do Pseudo-Boron”, a espada foi oferecida a Artur pela Dama do Lago, por intercessão de Merlin, seu conselheiro druida e havia sido forjada por um duende ferreiro.
A palavra “Excalibur”, deriva aparentemente do galês “Caledfwlch”, que combina os elementos “caled!” (batalha dura), e “bwlch” ( brecha, lacuna, entalhe). Na sua obra, Historia Regum Britanniae, Geoffrey de Monmouth, terá no século XII latinizado a palavra “Caledfwlch” para “Caliburnus”. A maioria dos celticistas considera o termo “Caliburnus” de Geoffrey como derivado dum antigo texto galês perdido, no qual “bwlch” ainda não tinha sido latinizado para “fwlch”. Nas fontes francesas antigas este tornou-se então “Escalibor”, “Excaliboor” e, finalmente, o familiar “Excalibur”.
Segundo as lendas, “Excalibur” seria uma espada mágica, inquebrável e que tornava o seu portador quase invencível, uma vez que lesões com perdas de sangue, não o matariam, já que as feridas recebidas não sangrariam em pleno.
(vi) - Através duma metonímia e duma metáfora, D. Nuno é transformado pelo poeta em “São Portugal em ser“, personificando assim o que há de místico em Portugal.
(vii) - Em jeito de prece, o poeta suplica ao beato que nos ilumine com a sua luz para que encontremos o caminho da pátria, isto é, a grandeza de Portugal.
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BIBLIOGRAFIA
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[1] - AZEVEDO, D. Carlos (Bispo Auxiliar de Lisboa). Iconografia do Santo Condestável. [http://condestabre.blogspot.com/2009/04/iconografia-do-santo-condestavel-por-d.html] – 6-12-2009.
[2] - BRAGA, Theophilo. Cancioneiro Popular, vol. 3. Imprensa da Universidade. Coimbra, 1867.
[3] - CAMÕES, Luís. Os Lusíadas. Instituto Camões. Lisboa, 2002.
[4] - GOMES, Pinharanda. S. Nuno de Santa Maria – Nuno Álvares Pereira. Antologia de documentos e estudos sobre a sua espiritualidade. Editora Zéfiro. Sintra, 2009.
[5] - MONIZ, Márcio Ricardo Coelho. A Figura do Santo Condestável em “Os Lusíadas”. [http://www.zenit.org/article-20700?l=portuguese] – 6-12-2009.
[6] - PESSOA, Fernando. Mensagem, Edição Crítica de José Augusto Seabra, Fundação Engº António Almeida. Lisboa, 1993.
[7] - PESSOA, Fernando. Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira. Lisboa, 1934.

sábado, 13 de janeiro de 2018

ESTREMOZ - Executivo MIETZ recusa atribuição de Medalha de Mérito Municipal ao Director do Museu Municipal


Hugo Guerreiro, Director do Museu Municipal de Estremoz. Cliché de
Sara Matos (http://www.e-cultura.sapo.pt/patrimonio_item/14039).

De acordo com o Facebook do PS Estremoz, de 12 do corrente mês, a maioria MIETZ (4) do Executivo Municipal de Estremoz, recusou na sessão de Câmara do passado dia 10 de Janeiro, uma proposta dos veradores PS (3) no sentido da atribuição da Medalha de Mérito Municipal ao Dr. Hugo Guerreiro, Coordenador Técnico e principal mentor da candidatura à inscrição da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz” na “Lista Representativa do Património Cultural da Humanidade”.
De acordo com o Facebook do PS Estremoz, os vereadores deste Partido ficaram espantados com tal chumbo e declararam que “É nosso entendimento que as lideranças fortes e democráticas devem reconhecer e valorizar os seus colaboradores e todos aqueles que contribuem para o sucesso dos seus projetos. Assim, o PS lamenta, profundamente, a insensibilidade deste Executivo MIETZ que, mais uma vez, não reconhece o mérito de quem tem contribuído para a elevação do Concelho, no caso em apreço, no âmbito da Cultura”.

Do Facebook do PS Estremoz, transcrevo de seguida, com a devida vénia e na íntegra, a Proposta de Atribuição da Medalha de Mérito Municipal, chumbada pela maioria MIETZ do Executivo Municipal de Estremoz.

PROPOSTA DE ATRIBUIÇÃO DA MEDALHA DE MÉRITO MUNICIPAL

O Dr. Hugo Guerreiro está desde 1998 ao serviço da Divisão Sócio-Cultural do Município de Estremoz, tendo até 2002 desempenhado funções de investigador e de apoio ao então Director do Museu Municipal, Professor Joaquim Vermelho. Por falecimento deste último, passou a desempenhar as funções de Director do Museu Municipal, cargo que com proficiência tem vindo a desempenhar até à actualidade.
Tem exercido as funções de Curador do Museu Municipal, das Reservas Visitáveis da Alfaia Agrícola, do Museu Rural de Estremoz e do Museu Escolar de Veiros. 
Tem sido responsável por exposições temporárias em quatro espaços distintos em Estremoz (Museu Municipal, Galeria Municipal D. Dinis, Sala de Exposições Temporárias do Centro Cultural e Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte).
A nível de conferências e de publicações tem dado especial enfoque ao Património Cultural de Évora Monte, bem como ao Património Religioso, à Faiança, ao Figurado e à Olaria de Estremoz.
Recentemente, a inscrição da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz” na Lista representativa do Património Cultural da Humanidade, foi fruto do trabalho do Dr. Hugo Guerreiro, que elaborou o pedido de inventariação, o qual foi subscrito pelo Município de Estremoz e aprovado no decurso da 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que entre 4 e 9 de Dezembro decorreu no Centro Internacional de Convenções Jeju, na ilha de Jeju, na República da Coreia.
Considerando que através da sua acção, o Dr. Hugo Guerreiro tem dado um contributo relevante no campo da Cultura, do qual tem resultado um aumento do prestígio da cidade, a Câmara Municipal de Estremoz, reunida em sessão ordinária, no dia 10 de Janeiro de 2018, deliberou outorgar-lhe a Medalha de Mérito Municipal, de grau prata, que lhe será entregue em cerimónia pública a realizar no Dia do Município (10 de Maio de 2018). 
Estremoz, 10 de Janeiro de 2018
Os Vereadores do PS Estremoz

Hernâni Matos

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

BONECOS DE ESTREMOZ - Orgulho e importância


Rita Rato. Deputada estremocense do PCP.

O reconhecimento recente do Figurado em Barro de Estremoz conhecido por “Bonecos de Estremoz”, como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, é de uma enorme importância e de um imenso orgulho.
Orgulho nas gentes que contra ventos e marés, com a sua determinação e resiliência, preservaram esta tradição tão antiga e marcante da identidade estremocense, insistindo na vontade e na necessidade de a manter viva. Orgulho nas artesãs e artesãos que com a sua arte e criatividade fizeram perdurar este património de geração em geração; nos professores que, desde que me recordo, desenvolveram projectos pedagógicos e estimularam o interesse das crianças e jovens em torno da barrística e dos Bonecos de Estremoz; em todos os investigadores e interessados que desde há décadas se bateram pelo reconhecimento desta arte.
Importância porque o reconhecimento como Património Cultural Imaterial da Humanidade pode e deve significar um passo sólido na valorização desta expressão da  cultura  popular, bem como  contribuir  decisivamente  para  a  sua  preservação  e salvaguarda.
Felicito por isso, as entidades que integraram a Comissão Executiva da candidatura  pelo  trabalho  que,  de  forma  persistente,  desenvolveram,  bem  como  todos os que se envolveram e empenharam neste processo.
Haja vontade e força para apoiar todas as artesãs e artesãos, pelo seu insubstituível  papel  de  preservação e  divulgação  deste  património, para promover projetos integrados de promoção das artes e da cultura, e se reforcem estratégias de valorização dos Bonecos de Estremoz e de toda a barrística como elementos de desenvolvimento económico e social de Estremoz, do Alentejo e do país.
“Barro velho do presente / Vão moldar-te as mãos do povo, / Vão dar-te forma diferente / Pra que sejas barro novo!”. Que seja assim como o escreveu António Simões: moldando um caminho de maior consciência da nossa identidade cultural, preservação do património e construção de um futuro de progresso e justiça social.

Rita Rato
Deputada estremocense do PCP
(Texto publicado no jornal E nº 190, de 28-12-2017)

Hernâni Matos

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Bonecos de Estremoz


Armando Alves. Pintor.
A existência dos Bonecos de Estremoz é conhecida há mais de trezentos anos e hoje são muitas as mãos de artistas populares que continuam a dar vida a estas figuras. A temática é, de uma maneira geral, baseada nas tarefas do dia a dia mas também em figuras religiosas, onde se destacam os presépios.
Foi por volta de 1945 que o escultor Sá Lemos, então director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, desafiou e incentivou a “Ti Ana das Peles” a trabalhar na recuperação de uma tradição adormecida que, a partir daí, se veio afirmando como uma actividade relevante na criação dos nossos artistas do barro, para o desenvolvimento do turismo local, para a economia da região, e para a afirmação do nome de Estremoz.
Muitos foram os artesãos que, depois da Ti Ana das Peles se foram afirmando e criando à sua maneira os Bonecos de Estremoz.
Sem querer ser injusto para ninguém quero referir apenas aqueles com quem tive mais proximidade. Desde logo, e porque ainda felizmente estão em actividade, “As Irmãs Flores”, a Maria Inácia Fonseca e a Perpétua Sousa Fonseca, que têm sabido dar continuidade ao que de melhor se tem feito para preservar o bom nome dos Bonecos de Estremoz sendo ainda de realçar o sentido pedagógico que manifestaram ao lançar nestes caminhos da arte do barro, o seu sobrinho Ricardo Fonseca, um jovem com talento que nos dá confiança para o futuro.
Antes tinha conhecido o José Moreira, ainda como empregado na Olaria Alfacinha, com quem privei bastante. Tinha no quintal uns tanques onde transformava a terra em barro para poder ser moldado e, depois de cozido, ser pintado pelas mãos sensíveis de sua mulher Josefina Augusta Ferreira.
Conheci ainda a Maria Luísa da Conceição que tinha uma forte ligação a esta actividade, muito influenciada pela família, tendo conseguido afirmar a sua marca pessoal no fabrico dos seus bonecos.
Por último, sendo o primeiro, o Mestre Mariano Alfacinha. Professor de olaria na Escola Industrial de Estremoz, que frequentei quando tinha treze anos e onde aprendi com ele a arte de trabalhar o barro. Estou a vê-lo com aquelas mãos grossas e sapudas, enormes e ao mesmo tempo delicadas, a mexer no barro e tratá-lo por tu porque o conhecia como ninguém. Foi com ele que aprendi também a fazer Bonecos de Estremoz. Não fiz muitos, talvez uma centena que vendia a vinte e cinco tostões na Papelaria Ruivo, da minha tia Joana Ruivo em Estremoz.
Ainda hoje guardo o último exemplar desses bonecos, “O Homem do Harmónio”, a quem um dia destes ouvi tocar uma modinha a propósito da proclamação dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Armando Alves
Pintor
(Texto publicado no jornal E nº 190, de 28-12-2017)

Hernâni Matos

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

BONECOS DE ESTREMOZ - Semear para colher


Semeador (1987). Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção particular.

A recente inscrição da "Produção de Figurado em Barro de Estremoz" na “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade” integrou a cidade de Estremoz na rota do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Daqui resultará um previsível incremento do turismo cultural, com reflexos importantes em termos da economia local. Todavia, a cidade “não se pode encostar à sombra da bananeira”. Pelo contrário, tal como sentencia o adagiário português, "Quem semeia, colhe" e "Cada um colhe segundo semeia".
Foi o Município de Estremoz que teve a iniciativa de apresentar a candidatura da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz" à inscrição na “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade”. É pois a ele que cabe a responsabilidade de tomar iniciativas diversificadas, visando divulgar, exaltar, salvaguardar e valorizar aquele registo, bem como a Memória dos barristas que já partiram e que com o seu trabalho também constituíram pilares duma candidatura vencedora.
Como é meu timbre, reflecti aprofundadamente em torno de toda esta temática e conclui existir uma mão cheia de iniciativas que podem ser tomadas nos sentidos atrás apontados e algumas que a meu ver, terão mesmo que inexoravelmente ser consumadas. Naturalmente que cabe ao Município e só a ele, tomar decisões, o que de modo algum é impeditivo de aqui apresentar sugestões que foram sistematizadas em 4 grandes grupos: Prioridades, Barristas, Eventos e Edições.
Prioridades
- Registar as designações “Bonecos de Estremoz” e “Figurado em Barro de Estremoz” como exclusivas do Município e as marcas homónimas como exclusivas dos barristas certificados pelo Município de Estremoz; - Instalar “outdoors” de dimensão adequada nos acessos às entradas da cidade, salientando a classificação da produção do Figurado em Barro de Estremoz como Património Cultural da Humanidade; - Criar um Centro Interpretativo do Figurado de Estremoz; - Erigir em Estremoz um monumento exaltador da produção de Figurado em Barro de Estremoz.
Barristas
- Certificar os barristas vivos cujo trabalho serviu de fundamento à candidatura apresentada à UNESCO e cuja produção artesanal se integra no processo de produção, dito “ao modo de Estremoz”; - Criar um selo certificador da condição de Património Cultural Imaterial da Humanidade a ser usado por cada barrista certificado pelo Município; - Implementar na cidade uma sinalética adequada que indique a localização das oficinas dos barristas; - Colocar uma lápide em mármore na fachada da oficina de cada um dos barristas falecidos, assinalando que trabalharam ali; - Atribuir a ruas de Estremoz nomes de barristas falecidos que foram esquecidos na mais recente atribuição de nomes a ruas da cidade. São eles: Ana das Peles, Sabina Santos, José Moreira, António Lino de Sousa, Mário Lagartinho, Isabel Carona e Aclénia Pereira;
Eventos
- Adoptar o Figurado em Barro de Estremoz como tema integrador do CARNAVAL DE ESTREMOZ 2018 e elemento de decoração na FIAPE 2018 e na COZINHA DOS GANHÕES 2018; - Promover eventos centrados na produção do Figurado em Barro de Estremoz: a) Exposição de colecções particulares; b) Exposição bibliográfica; c) Concursos de Desenho e Pintura, abertos a todos os graus de ensino do concelho, seguidos de exposições nas escolas em que foram realizados; d) Jogos Florais de âmbito nacional, na modalidade de quadra, soneto, poesia livre e décimas sujeitas a mote. Posteriormente, editar em livro as produções literárias submetidas a concurso; e) Encontro de Poetas Populares que declamariam décimas sujeitas a mote. Posteriormente, editar em livro as produções apresentadas no Encontro; f) Concurso de Fotografia, seguido de uma exposição num espaço exposicional municipal e nas sedes das Juntas de Freguesia; g) Seminário Interdisciplinar sobre Figurado de Estremoz, envolvendo professores do concelho das seguintes áreas: Artes, Biologia, Ciências Sociais, Filosofia, Física e Química, História, Português e Religião e Moral. Posteriormente, editar em livro as comunicações do Seminário; - Organizar em 2018, as 3ªs JORNADAS PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DO ALENTEJO em parceria com a Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial; - Promover a formação de professores do concelho da área das Artes, na produção do Figurado em Barro de Estremoz, de modo que estes possam ensinar os alunos, visando assim despertar vocações; - Incentivar a realização de visitas guiadas ao Museu Municipal e às oficinas dos barristas.
Edições
- Produzir uma 2ª impressão no papel timbrado do Município (envelopes e folhas de ofícios), de modo que neles figure uma referência à classificação da produção do Figurado em Barro de Estremoz como Património Cultural da Humanidade; - Agir junto dos Correios de Portugal, visando uma emissão de selos de correio e de um inteiro postal; - Promover edições centradas na produção do Figurado em Barro de Estremoz: a) Cartaz encomendado a um artista plástico de nomeada e que poderia ser distribuído por embaixadas e consulados estrangeiros em Portugal, bem como embaixadas e consulados portugueses no estrangeiro. Poderia ser ainda distribuído por câmaras municipais, agências de viagens, estações de metro, terminais de autocarros e aeroportos; b) Livros sobre o Figurado em Barro de Estremoz;
c) Medalha em bronze, comemorativa da classificação da produção do Figurado em Barro de Estremoz como Património Cultural da Humanidade; d) Colecção de postais ilustrados reproduzindo exemplares de Figurado em Barro de Estremoz dos séc. XVIII e XIX, do acervo do Museu Municipal, a serem comercializados num estojo em cartolina, tendo impressa uma resenha histórica sobre a produção do Figurado em Barro de Estremoz; e) Colecção de postais ilustrados reproduzindo exemplares de Figurado em Barro de Estremoz, de barristas vivos ou já falecidos dos séc. XX e XXI, a serem comercializados num estojo em cartolina, tendo impressa uma resenha biográfica de cada barrista; f) Colecção de marcadores de livros, reproduzindo exemplares de Figurado em Barro de Estremoz dos sécs. XVIII e XIX, do acervo do Museu Municipal; g) Cartões de Boas Festas com presépios de Estremoz e cartões de Dia dos Namorados ilustrados com o “Amor é cego”; h) Calendários de bolso; i) Jogos (baralho de cartas, ludo, puzzles bidimensionais, puzzles de cubo); j) Objectos de uso escolar (cadernos, esferográficas, lápis, caixas de lápis de cor); k) Pin metálico, exaltador da inscrição da produção do Figurado em Barro de Estremoz na Lista Representativa do Património Cultural da Humanidade;
Nota final
Alguns dirão que pensei muito ou até demasiado nisto tudo. Pela minha parte direi que pensei e repensei bastante, já que como proclama o rifonário português “O bem pensado nunca sai errado” e “Mal pensa quem não repensa”. “Envergonhe-se quem nisto vê malícia”, uma vez que o meu envolvimento em toda esta reflexão é fruto da motivação suscitada em mim pelos Bonecos de Estremoz, os quais transporto na massa do sangue.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Os bonecos de Estremoz


Margarida Maldonado. Educadora de Infância e Pintora

Sou alentejana de alma e coração, nascida em Estremoz onde vivi a infância e adolescência, antes de partir para a cidade grande onde me formei em Educação de Infância. Volto recorrentemente a Estremoz, os bonecos que trouxe comigo chamam-me à minha cidade. Feitos com terra-mãe e com alma são bem a expressão da beleza e do amor que os artistas artesãos da nossa terra conseguiram ao longo de séculos dar testemunho. Neles há um misto de Ternura, pela forma tão simples e ao mesmo tempo sábia, como estes nos souberam transmitir a história da vida rural e social nas suas diversas dimensões, fazendo-nos sentir emoções que são transversais a qualquer idade. Festa e Imaginação porque as cores que usam não são mais do que as cores dos nossos campos nas diversas estações do ano, das tonalidades do pôr do sol, do imenso céu azul e do branco do casario, acrescentando-lhes pormenores de beleza que nos enchem a alma e nos convidam a sonhar.
A linguagem dos bonecos tão simples e chamativa, apreciada por todas as gerações, está muito próxima das crianças parecendo as figuras terem sido concebidas a pensar nos mais pequenos. A colecção de apitos com figuras de pombas e de galos considerados brinquedos, é-lhes certamente dedicada.
A gentileza que transparece nesta arte, a todos tocou e marcou ao longo da vida. Admirando as figuras recordam-se histórias que se entretecem na nossa memória colectiva onde usos e costumes da nossa terra nos aparecem de uma forma tão natural.
Quem não conhece o famoso e delicado “Presépio de Estremoz” com os seus andares onde se colocam as figuras principais? Quem não teve já ocasião de admirar o trabalho encantatório das cantarinhas ou dos pucarinhos enfeitados (fidalguinhos), sabiamente pintados de cores garridas e ornamentados de flores?
 “A Primavera” (a minha preferida), é uma figura poética cheia de significado, lembra-nos a urgência de renovação e de esperança para que possamos renascer a cada dia como melhores pessoas.
No meu trabalho enquanto artista plástica eles foram sempre uma referência não só pelas belas cores, mas também pelas formas que me transportam para um universo poético que me é particular.
Os bonecos de Estremoz até agora só nossos e TÃO NOSSOS, foram reconhecidos como Património Cultural e Imaterial da Humanidade. Nada mais justo e expectável! Que o mundo todo possa conhecê-los e deliciar-se com tão especial beleza!
Parabéns a todos os que se implicaram nesta candidatura! Parabéns aos artistas artesãos que não deixaram morrer esta arte de que todos nos orgulhamos! Finalmente Parabéns a todos nós Estremocenses que estamos maiores e mais internacionais.
Margarida Maldonado
Educadora de Infância e Pintora
(Texto publicado no jornal E nº 191, de 11-01-2018) 


Hernâni Matos

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

PALÁCIO TOCHA: Não bate a bota com a perdigota


Palácio Tocha em Estremoz, antes das obras de reconstrução e adaptação, visando
a instalação do Museu Berardo-Estremoz. Fotografia do autor.

De acordo com o jornal “on line” TRIBUNA ALENTEJO, do passado dia 3 de Dezembro, disponível em https://www.tribunaalentejo.pt/artigos/museu-berardo-estremoz, o Museu Berardo vai ser instalado no Palácio Tocha em Estremoz, após obras de adaptação de 2,5 milhões de euros, comparticipadas em 75% por fundos comunitários, que começarão ainda este ano. O jornal refere ainda que “A cerimónia de assinatura do contrato de empreitada da obra decorreu, esta semana, no Salão Nobre da Câmara de Estremoz, na presença do presidente da Coleção Berardo, Joe Berardo, e do presidente do município, Luís Mourinha, sendo que a abertura do museu está prevista para o verão de 2019.”.
Esmiuçando a notícia, verifica-se que “Não bate a bota com a perdigota”. Na verdade, à data de 3 de Dezembro, o presidente da edilidade Luís Mourinha não se encontrava em Estremoz, pois tinha partido para a República da Coreia, onde no Centro Internacional de Convenções Jeju, na ilha de Jeju, presidiu à delegação estremocense que ali se deslocou à 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da UNESCO, em apoio da candidatura estremocense à inscrição da "Produção de Figurado em Barro de Estremoz" na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Para além disso, consultando o website do “ALENTEJO 2000”, Programa Operacional Regional do Alentejo para o período 2014-2020, disponível em:
http://www.alentejo.portugal2020.pt/index.php/projetos-aprovados/category/73-projetos-aprovados, constata-se que a Operação designada por “Museu Berardo Estremoz” e com código ALT20-08-2114-FEDER-000050, da qual é beneficiária a  “ASSOCIAÇÃO DE COLECÇÕES”, presidida por Joe Berardo, foi inscrita no Eixo Prioritário  do Plano Operacional “8-Ambiente e Sustentabilidade”. As “Despesas Elegíveis Totais Atribuídas à Operação” foram 3.475.871,34 euros, sendo o “Fundo Total Aprovado” 2.606.903,51 euros, ou seja 75%. Há uma diferença de 106.903,51 euros a mais em relação ao valor indicado pela notícia da TRIBUNA ALENTEJO, montante que não corresponde propriamente a uns “trocos”. 
O que a TRIBUNA ALENTEJO não diz e o público gostaria de saber, é quem é que paga os 25% que não foram financiados pelo FEDER. De salientar ainda que à data de encerramento da presente edição do “E” (26 de Dezembro), não se vislumbra o início de quaisquer obras no Palácio Tocha.