domingo, 19 de fevereiro de 2017

Do Carnaval à Quaresma - Notas de Literatura Oral


O Combate entre o Carnaval e a Quaresma (1559). Pieter Bruegel, o Velho (1526/1530–1569). Óleo
sobre madeira (164,5 x 118 cm). Museu de História de Arte, Viena. Do lado esquerdo, obeso, o
príncipe Carnaval que representa supostamente os protestantes, ao passo que à direita, o indivíduo
magro e triste, encarna os católicos.

A ACÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
A Quaresma é o período de quarenta dias que antecipam o Domingo de Páscoa, durante o qual se comemora a ressurreição de Jesus Cristo, que segundo a Igreja, passou quarenta dias no deserto, em jejum e oração, como preparação para a vida pública.
A Quaresma começa na quarta-feira de cinzas e termina na chamada Quinta-Feira Santa, data da celebração da última ceia de Jesus Cristo com os doze apóstolos. Após a Quaresma, inicia-se o chamado Tríduo Pascal, que finda no Domingo de Páscoa.
Na prática, o tempo de Quaresma são quarenta e sete dias, já que de acordo com o Cristianismo, o domingo, dedicado já como dia do Senhor, não é contado durante a Quaresma.
Durante a Quaresma, a Igreja convida os fiéis a um período de penitência e de meditação, através da prática do jejum, da esmola e da oração, como preparação para o Domingo de Páscoa.
Qual a origem da Quaresma? Em 313 da era cristã, o imperador romano Constantino, promulgou o Édito de Milão, que declarava a religião Cristã como legal e dotada de plena liberdade, ao mesmo tempo que anulava o vínculo até então existente entre o Estado Romano e a Religião pagã. Como consequência desse Édito, os templos e outros bens imóveis confiscados aos cristãos, foram devolvidos. Multidões de pagãos quiseram então entrar na Igreja. Foi assim que no séc. IV d. C, a Igreja criou a Quaresma.
O período de três dias que precedem a Quaresma é conhecido por Entrudo (Do latim introitus, -us, entrada, começo) ou Carnaval (Do francês carnaval, do italiano carnevale, de carnelevare, retirar a carne) e nele decorrem alegres brincadeiras e festas populares, que assumem múltiplas formas.
Apontado por muitos como tendo uma remota origem pré-cristã, o Carnaval assumiu importância no séc. IV d.C., quando a Igreja Católica, estabeleceu a Semana Santa antecedida dos quarenta dias da Quaresma. Um período de tão longa penitência e privações, incentivaria a realização de festas populares nos três dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma. Os três dias de Carnaval são conhecidos por dias gordos, especialmente a Terça-feira gorda.

ONOMÁSTICA E ALCUNHAS ALENTEJANAS
A onomástica portuguesa não permite que alguém tenha como nome próprio, “Carnaval” ou “Entrudo”. Permite todavia que alguém, homem ou mulher use o nome “Quaresma”, como segundo elemento do nome, podendo até o termo “Quaresma” ser pronome de família. [4] [6] Todavia o sábio povo alentejano soube tornear o problema, através da atribuição de alcunhas alentejanas: São conhecidas as seguintes:
- CARNAVAL – O visado nasceu em dia de Carnaval (Redondo e Castro Verde). [13]
- ENTRUDO – Alcunha atribuída em Reguengos de Monsaraz. [13]
- ENTRUDO CASTELHANO - alcunha aplicada em Moura. [13]
- QUARESMO(A) - alcunha outorgada em Avis e Grândola. [13]

TOPÓNIMOS E CALÃO
São desconhecidos topónimos [3] e praticamente desconhecidos termos de calão, tendo por base as palavras “Carnaval”, “Entrudo” e “Quaresma”. [7][9][10][12][14]. Todavia, o termo “Carnaval” é sinónimo de orgia [2] e designativo de tudo o que dá para a galhofa. [15] Por sua vez, no calão transmontano, “Entrudo”, designa uma pessoa gorda. [15]

SUPERSTIÇÕES POPULARES
São significativas as superstições populares relativas ao "Carnaval" e à "Quaresma". Destacamos algumas:
- “Não se deve fiar na Terça-Feira de Carnaval, porque isso seria fiar as barbas ao Entrudo. Se alguém fosse visto fazendo isso em tal dia, não passaria sem ver a roca e o fuso queimados.“ [17]
- “Na Quarta-Feira de Trevas não se deve fiar depois do pôr-do-sol, porque foi então que os Judeus fiaram as cordas com que prenderam Nosso Senhor Jesus Cristo.” [17]
- “É bom em Quarta-Feira de Trevas pôr um ferro sobre a ave que choca ovos, para que estes não gorem.” [17]
- “Desde Quarta-Feira de Trevas até à hora da Ressurreição de Sábado d'Aleluia não se deve secar roupa porque ela apareceria com pintas de sangue.” [17]
- “É um preservativo para afugentar as trovoadas, queimar palma benta em Domingo de Ramos e espalhar o fumo pela casa.” [17]
- “Quando fazem trovões, para que não aconteça mal algum, é bom acender um coto de vela, que tivesse estado aceso nalguma igreja em Quinta-Feira ou Sexta-Feira Santa.” [17]
- “No Sábado de Aleluia, é bom furtar-se água da pia de baptismo de uma igreja; três gotas desta água deitadas no comer livram de feitiços a quem as toma, mas há-de ser depois de o comer ser tirado do lume, porque antes é pecado.” [17]

ADIVINHAS
As adivinhas são outro elemento importante da nossa literatura oral, com presença significativa no período que temos vindo a abordar. Curiosamente não conseguimos localizar adivinhas relativas ao "Entrudo" ou "Carnaval", mas são múltiplas, aquelas cuja solução óbvia é “A Quaresma”:

“Posto que velha me vejas,
Já fui moça e sou formosa;
Deu-me o céu, em sete filhas,
Descendência venturosa.

Cinco destas são mui justas;
Uma por santa se exalta;
A mais velha é muito boa,
Teve contudo uma falta.

Todo o mundo nos tributa
Mais ou menos atenções;
Trata a todos com respeito.
Segue as nossas devoções.” [5]

“Sou uma velha, muito velha,
Com o ranço na garganta;
De sete filhas que tive
Só uma me saiu santa.” [5]

“Uma mãe com sete filhas: uma com faltas, cinco justas e uma santa. Qual é a mãe?” [5]

“Uma mãe com sete filhas:
Cinco justas,
Uma santa
E outra com falta” [11]

“Sete irmãs são,
uma é santa
e seis não.” [16]

O ADAGIÁRIO PORTUGUÊS
É interessante o adagiário relativo ao "Entrudo" ou "Carnaval". Como se trata de um período de certa licenciosidade, que é ansiosamente aguardado, o Povo sabe contar os dias:
-”Dos Santos ao Natal, cada dia mais mal; do Natal ao Entrudo, come-se capital e tudo.”
-”Do Natal ao Entrudo é um mês, quem bem contar sete semanas lhe há-de achar.”
-”Esta vida são dois dias e o Carnaval são três.”
-”Do Carnaval à Páscoa vão sete semanas.”
Há adágios que exprimem bem as características especiais de que se reveste a quadra festiva:
-”É Carnaval, ninguém leva a mal.”
-”No Carnaval nada parece mal.”
-”Em dia de Entrudo não há querela.”
-”No Entrudo, come-se tudo”.
-”Farta-te gato, que é dia de Entrudo.”
-“Namoro de Carnaval, não chega ao Natal.”
-”Alegria, Entrudo, que amanhã será cinza.”
-“O Entrudo, leva tudo.”
A observação do céu levou a criação de máximas relativas à astrologia do tempo, como é o caso desta:
-”Não há Entrudo sem Lua Nova, nem Páscoa sem Lua Cheia.”
Os adágios tecem, por vezes, considerações de natureza meteorológica:
-”Entrudo borralheiro, Páscoa soalheira.”
-”Carnaval na eira, Páscoa à lareira.”
-”Entrudo borralheiro, Natal em casa, Páscoa na praça.”
Outras vezes é a própria fauna que é observada:
-”Pelo Entrudo – cartaxo penudo.”
O adagiário, dá de resto, orientações relativas ao trabalho:
-”No Natal, fiar; no Entrudo, dobar; na Quaresma, tecer; e na Páscoa, coser.”
Dá igualmente recomendações para a Agricultura:
-”Pelo Natal semeia o teu alhal, e se o quiseres cabeçudo, semeia-o pelo Entrudo.”
-”Quem quiser o alho cabeçudo, sache-o pelo Entrudo.”
-”Quem quiser o alho cachapernudo, plante-o no mês do Entrudo.”
A "Quaresma" é mais escassa de adágios que o "Entrudo" ou "Carnaval", já que sendo um período de penitência, é menos do agrado popular. Com fundamento religioso é conhecido o adágio:
- “A Quaresma é muito pequena para quem tem de pagar a Páscoa.”
Por lei geral da Igreja, os fiéis de mais de 14 anos, não dispensados, devem abster-se de comer carne em certos dias do ano. Em Portugal, são dias de abstinência a Quarta-Feira de Cinzas e as sextas-feiras do ano que não coincidam com solenidades litúrgicas. Desta tradição penitencial da Igreja, nasceu o adágio:
- “Salmão e sermão têm na Quaresma a sua estação.”
A disciplina penitencial podia ser quebrada por Indulto Pontifício através duma licença canónica, a chamada Bula, que permitia comer carne nos dias de abstinência, mediante o pagamento de dinheiro que visava segundo a Igreja, a fundação e manutenção dos seminários. Assim, os ricos que já podiam comer carne todos os dias, também podiam pagar a Bula à Santa Sé, para comerem carne pela Quaresma. Pagavam à Igreja pelo pecado e eram abatidos da lista dos que iam para o Inferno. Daí que haja adágios que, como profunda crítica social, relatam a opinião dos pobres:
- “A Quaresma e a cadeia para o pobre é feita.”
- “A Quaresma e a cadeia para pobres é feita.”
A Bula, como forma de indulto vigorava desde 31 de Dezembro de 1914 (Papa Bento XV) e só cessou com a nova disciplina penitencial decretada pela Constituição Apostólica Paenitemini, que trata do jejum e da abstinência na Igreja Católica e foi promulgada por Paulo VI, em 1966.

CANCIONEIRO POPULAR
O Entrudo, de que o povo muito gosta, é um período de excelência gastronómica, cuidadosamente preparado:

“Eu hei-de mandar fazer,
Que eu não posso fazer tudo,
Uma ponte de filhoses
Para passar o Entrudo.” [8] – Castro Verde

O Entrudo é, naturalmente, um período de divertimento popular, considerado curto:

“Divertimos o Entrudo
Que se nos vai acabando;
Sabe Deus quem chegará
Desde que vem a um ano.” [8] – Castro Verde

Com o Entrudo, termina a gastronomia de excelência e entra-se na Quaresma, que exige penitência:

“Já lá se vai o Entrudo
Com galinhas e capões;
Agora vem na Quaresma,
Estudam-se as orações.” [8] – Vila Verde de Ficalho

“Já se acabou o Entrudo,
Já não se fazem funções;
Agora vem a Quaresma:
Calabaças com feijões. [8] – Alandroal

O povo, que gosta do Entrudo, refere o fim deste, de uma forma algo mordaz:

“Aí vai já o Entrudo
Pelo caminho do poço;
Vai gritando em altas vozes
Que lhe cortaram o pescoço.” [8] – Castro Verde

Todavia, para gáudio do Povo, decorrido um ano, aí estará de novo o Entrudo, qual Fénix renascida das cinzas.


BIBLIOGRAFIA
[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho - Editor. Lisboa, 1901.
[2] - BÍVAR, Artur. Dicionário Geral e Analógico da Lingua Portuguesa. Lello e Irmão, editores. Porto, 1948.
[3] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1981.
[4] – GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Volume 23. Editorial Enciclopédia, Limitada. Lisboa, s/d.
[5] - GUERREIRO, M. Viegas. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[6] - INSTITUTO DOS REGISTOS E DO NOTARIADO. Vocábulos admitidos e não admitidos como nomes próprios. [http://www.irn.mj.pt/sections/irn/a_registral/registos-centrais/docs-da-nacionalidade/vocabulos-admitidos-e/downloadFile/file/2010-09-30_-_Lista_de_nomes.pdf?nocache=1287071845.45]
[7] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[8] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983
[9] - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[10] - NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[11] - PIRES DE LIMA, Augusto C. O Livro das Adivinhas. 2ª Edição. Editiorial Domingos Barreira. Porto, s/d.
[12] - PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
[13] - RAMOS, Francisco Martins; SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[14] – SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[15] – SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
[16] - VIALE MOUTINHO, José. Adivinhas Populares Portuguesas. 6ª Edição. Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
[17] - PEDROSO, Consiglieri. Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos. Publicações D. Quixote. Lisboa, 1988.

Entrudo familiar. Augustus Earle (1793-1838). Aguarela sobre papel (34 x 21,6 cm).
 Biblioteca Nacional da Austrália, Canberra.
Carnaval. Capa da revista "Ilustração Portuguesa" nº 781, de 5 de Fevereiro de 1921,
com ilustração de Leal da Câmara (1876-1948).
Carnaval. Cartoon de Stuart de Carvalhais (1887-1961) na revista "Ilustração Portuguesa"
nº 524, de 6 de Março de 1916.
Carnaval. Capa da revista “Ilustração portugueza” nº 886, de 10 de Fevereiro de 1923,
com ilustração de Melendez.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

66 - Berços do Menino Jesus – 5


Berço das pombinhas (Anos 80 do séc. XX).
Liberdade da Conceição (1913-1990).
Colecção particular.

Figurado de Estremoz – 2
Simbologia do berço das pombinhas
O berço das pombinhas é revelador da modificação introduzida pelos nossos barristas ao contexto do nascimento de Jesus. Nele, a manjedoura de Belém transfigurou-se em berço com espaldar à maneira das camas senhoriais, já que para os cristãos, Jesus Cristo é Rei e Senhor do Universo. O berço é decorado com recurso ao azul do Ultramar e ao ocre amarelo. Trata-se de cores garridas associadas às claridades do Sul e que são utilizadas no embelezamento das habitações populares desta terra transtagana.
Na simbologia judaico-cristã, a pomba é um símbolo de pureza e de simplicidade, bem como daquilo que de imorredouro existe no Homem, o princípio vital, a Alma. As quatro pombas brancas poderão ser uma representação alegórica dos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João) que narraram a vida e a doutrina de Jesus Cristo como um Evangelho, visando preservar os seus ensinamentos ou revelar aspectos da natureza de Deus.
O simbolismo do galo está associado aos cultos solares da antiguidade, nos quais o Sol era venerado como divindade. De acordo com a tradição do culto mitraísta, o galo cantou no momento do nascimento de Mitra, o deus do Sol, da sabedoria e da guerra na Mitologia Persa. O mito viria a ser recuperado pela religião cristã, estando na origem da Missa do Galo, celebrada na passagem do dia 24 para o 25 de Dezembro, assinalando o nascimento de Jesus. Não há confirmação histórica de que Jesus tenha nascido na data em que se comemorava o nascimento de Mitra. Todavia, ela foi adoptada pelo cristianismo, visando fundir os dois cultos, uma vez que o culto a Mitra estava enraizado entre os romanos. A data corresponde também no Hemisfério Norte ao início do Solstício de Inverno, no qual os mitraístas celebravam o seu culto. O cristianismo adoptou o galo como símbolo do arauto anunciador de boas novas, uma vez que o nascimento de Jesus correspondia ao despontar de uma nova luz para o mundo. De acordo com a lenda, a única vez que o galo cantou foi à meia-noite, anunciando o nascimento de Jesus.
De acordo com a Mitologia Popular Portuguesa: - O galo quando canta diz: “Jesus é Cristo”; - O canto do galo à meia-noite faz dispersar a assembleia do Diabo e das Bruxas; - É mau agouro um galo cantar antes da meia-noite. Lá diz o provérbio: “Galo que fora de horas canta / Cutelo na garganta”; - O galo preto espanta as coisas ruins; - De acordo com o adagiário português “Galo branco não dá manhã certa”.
A figura do Menino Jesus está deitada sobre o seu lado direito. O braço esquerdo apoia-se no peito. Trata-se possivelmente de uma alegoria ao “Sagrado Coração de Jesus”. Recorde-se que no antigo Egipto, a mão colocada sobre o peito, indicava a atitude do sábio, que no caso de Jesus é Sabedoria Divina. Já a mão direita no pescoço assinalava a posição do sacrifício, aqui uma possível alegoria ao sacrifício de Jesus na cruz.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Ensaio sobre a cegueira

Cena do filme “Ensaio sobre a cegueira” de Fernando Meirelles (2008),
baseado na obra homónima de José Saramago.
À laia de desabafo
Pode-se muito legitimamente não gostar de furta-cor e eu seguramente não gosto. Todavia nas minhas crónicas de cidadania não desvio as atenções do leitor para questões colaterais que acabam por constituir “faits divers”. E isso nunca faço, já que “A verdade é como o azeite: Vem sempre ao de cima”.
Perfilho um sistema de valores que incluem a profunda convicção que o exercício da cidadania e em particular o direito de opinião, devem ter uma dimensão ética. Creio firmemente que os meios não justificam os fins, já que os meios utilizados podem pôr em causa valores universais que devem constituir a nossa matriz identitária e o nosso “corpus” doutrinário. À semelhança de José Saramago “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”.
Pessoalmente, recuso-me a ser um iluminado, daqueles que tudo fazem para convencer os outros, ainda que o adagiário nos advirta que “O excesso de luz produz a cegueira”. A partir daí “Sonhava o cego que via” e o que é trágico é que “O pior cego é o que não quer ver”. O iluminado enquanto cego está fortemente condicionado, já que “Um cego não pode ser juiz em cores”, além de que “Um cego não pode ser guia de outro cego”, pois “Se o cego guia o cego, correm ambos o risco de cair”.

Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade
Como é do conhecimento público, em devido tempo o Município de Estremoz submeteu à UNESCO, a Candidatura dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade. A fundamentação rigorosa da Candidatura, concedeu-lhe solidez e peso e consequentemente credibilidade, respeitabilidade e vigor, que a meu ver são condições não só necessárias como suficientes, para que seja uma Candidatura vitoriosa.
A inclusão dos bonecos de Estremoz na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, será o corolário natural de toda uma Candidatura que tem sido desenvolvida com rigor e traduzir-se-á numa maior divulgação, valorização e reconhecimento a nível planetário do nosso figurado. 
Aguardemos serenamente por Novembro de 2017.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Roberto, guardador de vacas e artista popular


Roberto Carreiras (1930-2017)
Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
- Colecção Joaquim Vermelho.

Faleceu no passado dia 8 de Janeiro, Roberto Carreiras, um dos últimos intérpretes da Arte Pastoril concelhia. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual foi um legítimo representante.
Quem foi Roberto Carreiras
Roberto Francisco Pereira Carreiras (1930-2017), filho de José Joaquim Carreiras e de Francisca Bárbara, era natural da freguesia de Veiros, concelho de Estremoz, em cuja Quinta do Leão, nasceu a 25 de Janeiro de 1930.
Na vila de Veiros frequentou a Escola Primária e concluiu a 3ª classe. Porém, as dificuldades económicas da família, forçaram-no a abandonar a escola e a tornar-se vaqueiro naquela quinta. Ali trabalhou, até que a falta de saúde o obrigou a reformar-se.
À semelhança de outros artistas populares iniciou-se na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto, era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas profissões, história, religião, touradas, etc.
Como criador começou a trabalhar ao ar livre no decurso da sua actividade como vaqueiro. Após se ter reformado, passou a trabalhar numa garagem cedida graciosamente pela Junta de Freguesia de Veiros, que o reconhecia não só como artista popular, como motivo de orgulho para a freguesia em que nascera e vivera.
Roberto Carreiras participou desde 1983 nas Feiras de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, bem como nas exposições de presépios promovidas anualmente pelo Museu Municipal. Aí esteve também patente ao público, entre Agosto e Novembro de 2006, a sua exposição “Artesanato de Roberto Carreiras”, integrada no conjunto de eventos que visavam assinalar os 80 anos de elevação de Estremoz à categoria de cidade. Em Maio de 2008, trabalhou ao vivo no mesmo local, participando na actividade “VIRVER MUSEUS”.
Roberto Carreiras e a esposa Rosa Mariana Machado, com quem casou em 1965, concederam-me há muito tempo, o privilégio da sua amizade, pelo que era sempre um prazer falar com eles no decurso das Feiras em Estremoz, no que era igualmente correspondido.
Num momento que é de luto para toda a Família, não posso deixar de formular aqui e com intenso pesar, as minhas sentidas condolências pela partida do seu ente querido.
A preservação da Memória
Roberto Carreiras partiu, mas deixou-nos um legado que urge preservar para memória futura. Creio que a Junta de Freguesia de Veiros tem motivação e meios para musealizar o seu espólio e decerto não deixará de o fazer. Pessoalmente, orgulho-me de as minhas colecções de Arte Pastoril integrarem especímenes afeiçoados pelas suas mãos, que comandadas pela sua alma de visionário, nunca se renderam à rudeza do uso do cajado e do mester de vaqueiro. Foram mãos hábeis que aliadas a um espírito sensível, conseguiram filigranar e esculpir os materiais com mestria. Para que conste na nossa memória colectiva, aqui fica o registo do meu testemunho, o qual finalizo, proclamando:
- ROBERTO CARREIRAS, PRESENTE!
Aproveito ainda para aqui sugerir à Junta de Freguesia de Veiros que numa próxima atribuição de topónimos a ruas da Vila, seja contemplada a proposta: RUA ROBERTO CARREIRAS (Artista Popular).
Requiem pela Arte Pastoril
Em 1983, decorreu em Estremoz, entre 15 e 17 de Julho, A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Tratou-se de uma excelente feira, concretizada apenas com “prata da casa”. Identificados de uma forma mais ou menos evidente com a Arte Pastoril, encontravam-se ali 10 participantes: António Joaquim Amaral, Jacinto Lagarto Oliveira, Joaquim Carriço (Rolo), Joaquim Manuel Velhinho, José Carrilho (Troncho), José Francisco Chagas, José Joaquim Vinagre, Manuel do Carmo Casaca, Roberto Carreiras, Teresa Serol Gomes.
Desde então, nunca ninguém com responsabilidades no cartório, equacionou um Plano de Salvaguarda da Arte Pastoril, ainda que circunstancialmente possa vir a chorar lágrimas de crocodilo.
Após o passamento de Roberto Carreiras, restam José Joaquim Vinagre e Joaquim Carriço (Rolo), do segundo dos quais está prevista uma exposição no Museu Municipal. A partir daí, fica em aberto a celebração de um Requiem pela Arte Pastoril.
Aqui fica o aviso de alguém que não se cala e que nunca se rende. É a crónica anunciada de mais uma tragédia cultural que se avizinha.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

65 - Berços do Menino Jesus – 4

Berço das pombinhas.
Mariano da Conceição (1903-1959).
Museu Nacional de Etnologia.

Figurado de Estremoz – 1
O berço das pombinhas
O Presépio de trono ou de altar e os de 3, 6 e 9 figuras incluem um berço com o Menino Jesus, numa representação alegórica ao nascimento de Jesus numa manjedoura. Trata-se de um conjunto em barro policromado, constituído por um berço, uma figura antropomórfica masculina (o Menino Jesus) e cinco figuras zoomórficas (um galo e quatro pombinhas).
Merece especial descrição, o espécimen de Mariano da Conceição, pertencente à colecção do Museu Nacional de Etnologia. O berço, em forma de sector circular, está assente em 4 pés cilíndricos colocados nas extremidades e possui um espaldar elevado, igualmente em forma de sector circular, orlado por um adorno de pregas, figurando folho. O berço, de cor amarela, encontra-se decorado com dois conjuntos desencontrados de linhas rectas de cor castanha, dispostas em ziguezague, formando losangos, cada um deles com uma pinta verde-escuro no interior e com pintas zarcão no exterior. A cor do folho é azul do Ultramar. O espaldar acha-se decorado por quatro ramos de cor verde-escuro, encimados por flores cor de zarcão, que se espalham a partir do centro da base do espaldar. Os pés do berço estão pintalgados de verde-escuro e cor de zarcão.
No centro do folho encontra-se empoleirado um galo, ladeado de duas pombinhas, olhando qualquer deles em frente. Nas extremidades laterais do berço encontram-se mais duas pombinhas, qualquer delas viradas para o Menino.
O galo e as pombinhas têm as patas figuradas por dois pedaços de arame e apresentam as asas recolhidas. As pombinhas mostram a cauda esticada e bifurcada, enquanto que a cauda do galo se encontra erguida e revela os contornos superiores recortados.
As pombinhas e o galo são brancos, pintalgados de preto e apresentam linhas pretas, configurando as penas. Os olhos estão representados por dois pontos negros e o bico é amarelo, de forma cónica. Na cabeça, o galo ostenta uma crista e um papo, ambos vermelhos. No pescoço das pombinhas foi pintada uma fita de cor azul.
No interior do berço está assente uma manta branca com extremidades recortadas e decoradas com círculos incisos de cor azul, assim como uma almofada branca com extremidades recortadas e decoradas com linhas azuis.
Assente na manta e com a cabeça sobre a almofada, encontra-se a figura do Menino Jesus, despida e deitada sobre o seu lado direito, com a perna esquerda sobreposta à direita. O braço esquerdo apoia-se no peito e sobre o direito apoia-se a cabeça. Nos pés e nas mãos, linhas incisas representam os dedos. Na parte inferior do tronco do Menino, um ponto inciso figura o umbigo. Na cabeça do Menino, o cabelo é de cor amarela. Os olhos são simbolizados por dois pontos negros, os quais estão encimados por dois traços de cor castanha que figuram as sobrancelhas. O nariz é em relevo e a boca apresenta lábios delineados e de cor vermelha. De cada lado da face é visível uma roseta alaranjada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

64 - Berços do Menino Jesus - 3


Berço enfeitado (2015).
Jorge da Conceição (1963-).
Colecção particular.

Arte portuguesa - 2 
- ESCULTURAS EM BARRO (PRESÉPIOS) – Dentre eles e pela importância de que se revestem, destaco os presépios barrocos confeccionados em barro cozido policromado, ainda que podendo recorrer a outros materiais, tais como: talha dourada, madeira, cortiça, vidro, pano, papel, prata, ouro, etc. De tamanho e com número de figuras muito variável, podem estar montados e protegidos por maquinetas. Refiro seguidamente os mais importantes por mim identificados: - PRESÉPIO DA MADRE DE DEUS - António Ferreira (1700-1730). Fabrico de Lisboa. Museu Nacional do Azulejo, Lisboa; - PRESÉPIO - António Ferreira (séc. XVIII). Fabrico de Lisboa. Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra; - PRESÉPIO EM MAQUINETA – Autor desconhecido (1751-1800). Fabrico de Lisboa. Museu de Évora; - PRESÉPIO DA IGREJA DA SÉ PATRIARCAL DE LISBOA (Em maquineta) - Machado de Castro (1766). Fabrico de Lisboa. Sé Patriarcal, Lisboa; - PRESÉPIO DAS NECESSIDADES (Em maquineta) – Autor desconhecido (1775-180O). Fabrico de Lisboa. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa; - PRESÉPIO EM MAQUINETA - Faustino José Rodrigues (Escultor) e José António Lisboa (Marceneiro da Maquineta) (c. 1783). Fabrico de Lisboa. Museu Nacional de Antiga, Lisboa; - PRESÉPIO DOS MARQUESES DE BELAS (Em maquineta) - Joaquim Joseph de Barros, Joaquim António de Macedo e António Pinto (1796-1812). Fabrico de Aveiro. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa; - PRESÉPIO EM MAQUINETA – Autor desconhecido (séc. XVIII). Fabrico de Aveiro. Museu de Aveiro; - PRESÉPIO EM MAQUINETA – Machado de Castro (séc. XVIII). Fabrico de Lisboa. Igreja de São José das Taipas, Porto; - PRESÉPIO DA BASÍLICA DA ESTRELA - Machado de Castro (séc. XVIII). Fabrico de Lisboa. Basílica da Estrela, Lisboa; - PRESÉPIO EM MAQUINETA - Silvestre Faria Lobo (?) (3º quartel do séc. XVIII). Fabrico português. Palácio Nacional de Queluz, Lisboa.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Reabilitação urbana da cidade de Estremoz


Edifício da Olaria Alfacinha
Reabilitar o edifício da antiga Olaria Alfacinha, destinando-o a Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, é um dos múltiplos objectivos a atingir através da “PROPOSTA DE DELIMITAÇÃO DA ÁREA DE REABILITAÇÃO URBANA – CIDADE DE ESTREMOZ”. Esta é apresentada num documento de 48 páginas, elaborado em Agosto de 2015, pelo Sector de Gestão Urbanística, Planeamento e Projecto Municipal da CME.
O mesmo objectivo consta no “PLANO DE PORMENOR DE REABILITAÇÃO URBANA – CIDADE DE ESTREMOZ”, documento de 47 páginas, produzido em Julho de 2016, o qual aprofunda o documento anterior.
O último documento estima em 18 meses o tempo necessário à elaboração da proposta técnica da revisão do Plano, a que há que juntar o tempo necessário à tramitação e procedimentos de elaboração e aprovação, os quais culminam numa “Discussão pública e subsequente ponderação dos resultados”, a que se segue a “Aprovação pela Assembleia Municipal, sob proposta da Câmara Municipal”.
A oportunidade do Plano é justificada pelo próprio: “Possibilidade de captação de fundos comunitários, perspectivando-se que advirão do programa de financiamento denominado “Estratégia Europa 2020 – Portugal 2020””, já que como nos diz “No quadro de Referência Estratégica Nacional 2014 – 2020 a Comissão Europeia considerou a reabilitação urbana como o grande projecto para a Europa Comunitária e como factor atenuante do desemprego para o sector da construção civil e obras públicas”.

Casa do Alcaide-mor
O “PLANO DE PORMENOR DE REABILITAÇÃO URBANA – CIDADE DE ESTREMOZ”, no seu conjunto formula 18 excelentes objectivos gerais de reabilitação urbana e 17 excelentes objectivos específicos, dos quais me permito destacar o seguinte: “Incentivar e apoiar a reabilitação do património cultural, como pilar de desenvolvimento fundamental, em articulação com as entidades tutelares, designadamente a Capela da Rainha Santa Isabel, a Antiga Casa da Câmara, a Casa das Fardas, o Paiol de Santa Bárbara, o Prédio Militar 49, a Igreja de Santa Maria, a Igreja dos Congregados, o Convento das Maltezas e o Palácio Tocha”.
Como a Casa do Alcaide-mor, aqui designada Antiga Casa da Câmara, é propriedade municipal, porque é que o Município não elabora um projecto para a sua reabilitação e o inclui no programa de financiamento denominado “Estratégia Europa 2020 – Portugal 2020”? Aqui fica a pergunta.

Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz
É sabido que a Casa do Alcaide-mor é um prédio urbano composto por rés-do-chão, 1.º e 2.º andares, afecto a habitação, com 423 m2 de superfície coberta e logradouro com a área de 556 m2. Há quem pense que a Casa do Alcaide-mor seria o edifício mais digno e adequado para alojar o Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz. Este deveria também integrar a Faiança de Estremoz do séc. XVIII e a Louça de Barro Vermelho. E a Casa do Alcaide-mor está ali tão perto do Museu Municipal…

A União faz a força
Pela sua composição, o acervo do Museu Municipal é o mais forte em figurado de Estremoz. Mas há outros a nível local, como é o caso do pertencente ao Museu Rural e que presentemente se encontra encaixotado no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. A eles há que juntar o espólio do Padre Mário de Brito Aparício Pereira, Capelão da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa, doado recentemente à Santa Casa da Misericórdia de Estremoz e que inclui cerca de 1000 bonecos de Estremoz.
Não poderiam estas 3 colecções integrarem o Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, sem nenhum dos proprietários perder a titularidade do que legitimamente é seu? O Município, a Santa Casa da Misericórdia e o Museu Rural não poderiam dar as mãos nesse sentido? É que a união faz a força. A cidade de Estremoz merecia isso, assim como os seus bonecos, cuja proclamação como Património Cultural da Humanidade, aguardamos no final do ano em curso.