terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Bonecos de Estremoz: preservar e salvaguardar a memória de uma forma de expressão da cultura popular


Diogo Vivas (Arquivista, doutorando em Ciência da Informação)

O reconhecimento da produção de figurado em barro de Estremoz, vulgarmente conhecida por “Bonecos de Estremoz”, como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, no decurso da 12.ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorreu em Jeju (Coreia do Sul), no passado mês de Dezembro deve, a todos, encher de orgulho.
Devemos reconhecer, além do labor e da criatividade das mãos que, geração após geração, ao longo dos séculos, souberam transmitir uma forma muito peculiar de trabalhar o figurado de barro, o papel determinante do Professor José Maria de Sá Lemos, então director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, nas décadas de 30-40 do século passado, na revitalização de uma arte quase extinta.
O trabalho desenvolvido, primeiramente, com Ana Rita da Silva, vulgo “Ti Ana da Peles” e, numa segunda fase, com Mariano da Conceição, permitiu recuperar uma arte secular que os artesãos seguintes souberam dar continuidade até à actualidade, criando e recriando, ao jeito dos barristas do passado.
Na pessoa do mais novo dos artesãos, Ricardo Fonseca, felicito todos os ceramistas. Congratulo-me, em particular, pela sua coragem em abraçar semelhante desafio e que seja o estímulo para que mais jovens se interessem por esta forma de expressão da cultura popular estremocense, assegurando a sua continuidade num mundo globalizado.
Uma palavra de reconhecimento a todos os investigadores que ao longo dos tempos se têm dedicado ao estudo desta temática. A sua reflexão e produção intelectual constituíram a tão necessária memória escrita, fundamental, não só para o sucesso da candidatura, mas também para a sua preservação e conservação futuras.
Não poderia, contudo, deixar de recordar os arquivos/ bibliotecas e os testemunhos/ memorias orais, que serviram de suporte a muita da investigação desenvolvida. Destaco, particularmente, a Biblioteca e o Arquivo Municipal de Estremoz e a pesquisa desenvolvida pelos seus técnicos, num trabalho (in)visível e moroso, de inegável valor.
Um voto de felicitações à comissão que conduziu o processo de candidatura pela perseverança com que desenvolveu o seu trabalho bem como a todas entidades que directa ou indirectamente se envolveram neste processo.
Termino com um desafio ao Município de Estremoz, para a criação de um Centro de Documentação e Informação, em homenagem ao homem que, no século passado, de forma visionária, resgatou da extinção os “Bonecos de Estremoz”: o Professor José Maria de Sá Lemos (1892-1971). Um centro que reunisse a sua obra artística assim como a biblioteca e arquivo pessoais; apoiasse e desenvolvesse actividades de investigação e de aprofundamento de estudos em torno de temáticas afins e procurasse editar estudos e reunisse os textos dispersos da sua autoria.
Diogo Vivas
Arquivista, doutorando em Ciência da Informação
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-1-2018)

Hernâni Matos