quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Roberto, guardador de vacas e artista popular


Roberto Carreiras (1930-2017)
Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ –
- Colecção Joaquim Vermelho.

Faleceu no passado dia 8 de Janeiro, Roberto Carreiras, um dos últimos intérpretes da Arte Pastoril concelhia. Estremoz está de luto e com a cidade, a Cultura Popular Alentejana, da qual foi um legítimo representante.
Quem foi Roberto Carreiras
Roberto Francisco Pereira Carreiras (1930-2017), filho de José Joaquim Carreiras e de Francisca Bárbara, era natural da freguesia de Veiros, concelho de Estremoz, em cuja Quinta do Leão, nasceu a 25 de Janeiro de 1930.
Na vila de Veiros frequentou a Escola Primária e concluiu a 3ª classe. Porém, as dificuldades económicas da família, forçaram-no a abandonar a escola e a tornar-se vaqueiro naquela quinta. Ali trabalhou, até que a falta de saúde o obrigou a reformar-se.
À semelhança de outros artistas populares iniciou-se na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto, era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas profissões, história, religião, touradas, etc.
Como criador começou a trabalhar ao ar livre no decurso da sua actividade como vaqueiro. Após se ter reformado, passou a trabalhar numa garagem cedida graciosamente pela Junta de Freguesia de Veiros, que o reconhecia não só como artista popular, como motivo de orgulho para a freguesia em que nascera e vivera.
Roberto Carreiras participou desde 1983 nas Feiras de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, bem como nas exposições de presépios promovidas anualmente pelo Museu Municipal. Aí esteve também patente ao público, entre Agosto e Novembro de 2006, a sua exposição “Artesanato de Roberto Carreiras”, integrada no conjunto de eventos que visavam assinalar os 80 anos de elevação de Estremoz à categoria de cidade. Em Maio de 2008, trabalhou ao vivo no mesmo local, participando na actividade “VIRVER MUSEUS”.
Roberto Carreiras e a esposa Rosa Mariana Machado, com quem casou em 1965, concederam-me há muito tempo, o privilégio da sua amizade, pelo que era sempre um prazer falar com eles no decurso das Feiras em Estremoz, no que era igualmente correspondido.
Num momento que é de luto para toda a Família, não posso deixar de formular aqui e com intenso pesar, as minhas sentidas condolências pela partida do seu ente querido.
A preservação da Memória
Roberto Carreiras partiu, mas deixou-nos um legado que urge preservar para memória futura. Creio que a Junta de Freguesia de Veiros tem motivação e meios para musealizar o seu espólio e decerto não deixará de o fazer. Pessoalmente, orgulho-me de as minhas colecções de Arte Pastoril integrarem especímenes afeiçoados pelas suas mãos, que comandadas pela sua alma de visionário, nunca se renderam à rudeza do uso do cajado e do mester de vaqueiro. Foram mãos hábeis que aliadas a um espírito sensível, conseguiram filigranar e esculpir os materiais com mestria. Para que conste na nossa memória colectiva, aqui fica o registo do meu testemunho, o qual finalizo, proclamando:
- ROBERTO CARREIRAS, PRESENTE!
Aproveito ainda para aqui sugerir à Junta de Freguesia de Veiros que numa próxima atribuição de topónimos a ruas da Vila, seja contemplada a proposta: RUA ROBERTO CARREIRAS (Artista Popular).
Requiem pela Arte Pastoril
Em 1983, decorreu em Estremoz, entre 15 e 17 de Julho, A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Tratou-se de uma excelente feira, concretizada apenas com “prata da casa”. Identificados de uma forma mais ou menos evidente com a Arte Pastoril, encontravam-se ali 10 participantes: António Joaquim Amaral, Jacinto Lagarto Oliveira, Joaquim Carriço (Rolo), Joaquim Manuel Velhinho, José Carrilho (Troncho), José Francisco Chagas, José Joaquim Vinagre, Manuel do Carmo Casaca, Roberto Carreiras, Teresa Serol Gomes.
Desde então, nunca ninguém com responsabilidades no cartório, equacionou um Plano de Salvaguarda da Arte Pastoril, ainda que circunstancialmente possa vir a chorar lágrimas de crocodilo.
Após o passamento de Roberto Carreiras, restam José Joaquim Vinagre e Joaquim Carriço (Rolo), do segundo dos quais está prevista uma exposição no Museu Municipal. A partir daí, fica em aberto a celebração de um Requiem pela Arte Pastoril.
Aqui fica o aviso de alguém que não se cala e que nunca se rende. É a crónica anunciada de mais uma tragédia cultural que se avizinha.